domingo, 11 de agosto de 2013

PAI, AQUELE ABRAÇO!!!!


Hoje muitas famílias estarão reunidas em torno de mesas alegres, celebrando seus pais. Filhos estarão refletindo como são parecidos com seus “coroas”, jovens pais vão curtir seus filhotes, fazendo projeções de como serão quando crescer, outros vão acariciar barrigas, sonhando com o momento em que poderão ter nos braços seus bebes. Haverá  famílias que não terão o que comemorar: ou não têm pais que valham a pena, ou têm filhos causadores de muita dor. Em alguns lares as “pães” serão o centro das atenções. Elas receberão o carinho por terem sido pai e mãe. Há aquelas mães que vão internamente reivindicar o dia como seu,  e que ilustram a frase do Facebook que diz: “Hoje é o dia do: pede pra sua mãe”.

Muitos vão celebrar o dia, mas seus corações estarão apertados, pois tiveram ótimos pais que foram embora muito cedo. É o meu caso. Quando meu pai se foi eu tinha nove anos. Lamentavelmente o vi partir. Presenciei seu último suspiro. Eita ausência que dói! Você passa anos se perguntando: por que Deus fez isso? Por que me castigou?

Evoca seu pai tantas vezes, pede ajuda para suas dúvidas pueris, outras vezes fica diante de enrascadas e pede, pede por um sinal. Mas o sinal não vem. Ou talvez você não seja exatamente boa em decifrar sinais. Ou pior: talvez você não tenha fé suficiente para receber a resposta. Ou quem sabe: tem fé demais e acaba refém da sua crença.
E quantas vezes você imagina: que tipo de vida teria tido caso seu pai tivesse ficado mais tempo? Teria feito outro curso? Teria trabalhado em outras áreas? Teria casado melhor ou pior? Teria tido embates, seria cordata? Enfim, quem perde um pai nunca abandona a fase dos por quês?

O pai que vive na minha imaginação é perfeito. Ele seria o porto seguro ao qual recorreria quando a mente nublasse sem encontrar soluções. Seria o avô coruja, mas também o que indicaria caminhos. Seria o portador frequente de boas novas. Na verdade, meu pai era leve, alegre, brincalhão. 

Pouco tempo antes de morrer, ele me proporcionou um dia inesquecível. Levou-me ao Centro Administrativo, local que concentrava as inúmeras repartições públicas de seu tempo. Apresentou-me aos seus amigos, sempre estufando o peito de orgulho e falando: “essa é minha caçula, Aninha”. Era um sem fim de pessoas que vinham cumprimentá-lo. Depois me levou para almoçar no “Grego”. Um dos poucos restaurantes de Goiânia à época, onde o prato principal era frango assado. Na sequência comemos pudim no carrinho da esquina da rua quatro com a Anhanguera. O melhor: fomos a uma loja comprar minha boneca Susi, a “Barbie” do meu tempo.

São poucas as lembranças que tenho e rezo todas as noites, pedindo a Deus que me permita encontra-lo ao menos nos sonhos, mas ele nunca aparece. De toda forma, sinto a presença dele de uma maneira que não saberia explicar. Pode ser delírio, mas eu acredito que ele está de olho e que se não mudou o rumo de algumas escolhas erradas é porque sempre defendeu o livre arbítrio.

Olha pai, depois que você se foi eu fiquei um bocado perdida. Meus irmãos, bem mais velhos, não assumiram o seu papel. Na verdade, eles passaram um bom tempo me ignorando. Eu diria que, em alguns momentos, foram até cruéis. Mas quer saber? O tempo me ensinou a entender que eles também ficaram um tanto perdidos depois que você partiu. E convenhamos: eles estavam começando novas etapas da vida e eu era apenas uma pirralha com a qual eles não tinham afinidade. Era a caçula, a garota no meio de um universo masculina. Uma garota, e garotas são garotas.

Roberval, que também foi embora e deve andar contigo por ai, me ensinou que os “brutos também amam”. À sua maneira, ele tinha um jeito peculiar de afeto. Antes de ir embora até disse que me amava e me chamou de Aninha.

Brasil passou tempo demais se levando a sério. Mas hoje ele é como me lembro de você, pai. Aquele que perde o amigo, mas não perde a piada. Nas suas constantes críticas eu sou capaz de ver um homem que cuida e que ama, embora não verbalize os sentimentos.

Mas quer saber, pai? Minha mãe fez direitinho o seu papel. Ela foi incansável na tarefa de fazer de mim, uma mulher de valor. Se eu não atingi o nível máster a culpa é minha, sempre cheia de perguntas, de sensibilidades, de mulherzinha, papel que ela nunca desempenhou. Ela é prática. Ela não amolece nem na hora do carinho. Suas mãos são pesadas e ela fala “eu te amo”, ao tempo em que te enquadra e te empurra e diz: “você não vai fraquejar”. Ela é do tipo que segura forte, que está sempre lembrando as facilidades que tive, enquanto ela precisou ralar tanto. Mas é a primeira a me socorrer quando preciso. Além de mãe e pai, construímos uma relação forte de amigas, de companheiras e a distância física nunca impediu nossa cumplicidade.

Eu não tenho uma foto sua nesse momento. Sei que era baixinho, tinha uma pele alva, pés gordinhos como os meus e uma risada sapeca, acompanhada de olhos apertadinhos.

É, pai, nunca vou saber se fui aprovada como filha, mas você, onde quer que esteja, pode ficar certo, foi um pai nota mil.

Não sei como funcionam as coisas por ai, na sua dimensão, mas tenha certeza que na minha secreta comemoração, seu dia dos pais terá prosa e purpurina, terá um coração batendo forte por ti e o respeito e admiração sem fim.  

Te amo, pai. Sempre te amarei. Vê se hoje me dá um abraço apertado e sussurra no meu ouvido: “Aninha”.  

sexta-feira, 23 de março de 2012

"ATÉ UM DIA. ATÉ TALVEZ. ATÉ QUEM SABE"


Tive uma infância solitária. Irmã caçula de dois irmãos mais velhos, são nítidas as lembranças de uma vida entre adultos. Dessa época ficou a mania de falar sozinha,  de brincar no enorme quintal de casa e fazer daquele espaço um universo de fantasias.

Na adolescência, no entanto, a solidão foi atenuada pelas idas a Uruaçu. Cidade do norte do estado, onde morava minha tia Deolvira, irmã de meu pai. Ao contrário de minha casa, com poucas pessoas, a dela vivia em permanente burburinho. Havia os seis filhos e o desfilar frenético de parentes, amigos, conhecidos o que não permitia que houvesse rotina por lá.

Foi na casa de minha tia, que aprendi com minhas primas que a mistura de bicarbonato de sódio com suco de laranja podia se transformar em algo bem parecido com guaraná. Foi também nesse tempo que descobri que era necessário ficar horas com “bobs” na cabeça – cabelos ondulados não eram uma opção - para quem queria causar. Nesse tempo também submeti-me ao martírio de tirar as sobrancelhas, uma dor que nunca esquecerei.

Tia Deolvira vivia numa casa grande, com um quintal que terminava em um córrego. Na frente da casa ela mantinha uma loja e na calçada que dava para a rua principal passávamos horas observando o movimento de carros e pessoas. Minhas primas tinham muitos amigos. Uma delas era filha do dono do cinema, o que nos garantia passaporte para as sessões. Depois, sorvete no Anacleto e idas ocasionais ao Beira Rio, o bar da moda.

Foi em Uruaçu que fiz alguns ritos de passagem, como “flertar”, trocar o primeiro beijo e acreditar que aquele garoto de cabelos claros, olhos azuis, com feições de Jesus Cristo seria para sempre. Foi lá que aprendi que na falta de grana ou de opções de lazer, os meninos roubavam galinhas e a gente passava a noite comendo galinhada e rindo de coisas tolas. Em Uruaçu dancei pela primeira vez, conduzida pelo Carlos Alberto, namorado da minha prima Neide, que também nos levava a bordo de uma camioneta Ford C10, fazendo manobras arriscadas e assustando velhinhas pacatas que ficavam sentadas em frente à rua. Sempre que ele aparecia as pessoas sussurravam: “é o filho do Carradão”, com o sotaque peculiar da região, queriam dizer que era o filho “do Carlos Adão”.

Dessa época, mais que as aventuras, nascia a mais completa adoração pela minha tia. Eu intuía que graças a ela e ao seu acolhimento, teria  a oportunidade de experimentar uma vida de novidades, que em casa não seria possível vivenciar.

Nunca me esquecerei da comida farta, do seu carinho, da devoção aos filhos, da solidariedade com as pessoas, de seus braços sempre abertos para proteger aqueles que se socorriam dela. Minha tia tinha uma preocupação ímpar com a família. Viajava para lugares distantes apenas para visitar um parente e foi incansável nos cuidados com a “Vó Anjinha”.

Não me recordo de ocasião boa ou ruim que minha tia não estivesse presente nas nossas vidas. É impossível esquecer seu bom humor, a forma como fazia piadas de si, das piores situações, da sua força e resignação quando foi surpreendida pelo Parkinson. Como não admirar sua jornada de cuidados na doença do meu tio Neilton e seu amor sem limites pelos filhos, netos e bisnetos? Como uma fênix, estava sempre se reerguendo de uma perda, se refazendo, se reinventando e se amoldando à vida.

Adorava quando minha mãe, sem disfarçar o ciúme dizia: “você é igualzinha à sua Tia Deolvira”. Herdei dela as pernas grossas, o quadril largo, o cabelo rebelde e a inquietação de estar sempre em movimento, de agregar, de amar as pessoas e cultivá-las, mesmo que ao final, algumas delas se revelassem ervas daninhas.

Ano passado ela foi diagnosticada com um câncer raro. Fomos nocauteados pela noticia, sofremos em silêncio e recorremos às orações. Esse vilão não derrubaria a nossa guerreira, ela iria se reerguer, ela não nos deixaria órfãos do seu amor. De fato, ela venceu a batalha e apesar de todas as provações, superou a doença.

Infelizmente, no começo desse ano, quis o destino que o câncer reincidisse. A doença veio fulminante, avassaladora. De repente a nossa heroína estava ali, tombada, refém de uma força maior que ela não seria capaz de suportar. Mas ela lutou. Como lutou. Duas semanas atrás, sai de Brasília num domingo de tarde para vê-la. Embora abatida, com uma voz que mais parecia um sussurro, ela disse coisas lindas. Reiteramos o nosso amor, ela claramente se despediu. Mas a doença não lhe roubou a dignidade, a elegância, o humor. Sai de lá como quem não tinha mais chão. Passei todos esses dias com o coração apertado. Suando frio cada vez que o telefone tocava, com medo da notícia que ninguém queria receber.

No domingo, dia 18, fui visitá-la novamente. Ela já não tinha a mesma lucidez, estava visivelmente derrotada e só pude tocar sua mão, beijá-la e dizer que jamais a esqueceria. Helvécio, emocionado, me disse: “Ana, diga adeus, pois dificilmente veremos sua tia com vida outra vez”. E assim foi. Dois dias depois ela nos deixou.

Agora ela habita um universo paralelo, outra dimensão. Mas olhando-a no seu leito de morte, era impossível não ver na sua face serena a sensação de dever cumprido, de quem entregou-se ao descanso. Ela partiu sem nos deixar, afinal, quem poderá esquecer seus olhinhos apertados quando sorria, sua elegância, seu porte de rainha, sua capacidade de não se levar a sério?

Tia, apesar das adversidades, como vou esquecer você com todas as enfermidades me dizer que me doaria um rim? Como vou esquecer você dizendo que mais que seus sobrinhos, éramos como filhos prá você? Como vai ser todo dia 10 de abril sem te ligar? Como serão os aniversários sem a sua presença? Tia, como vou te esquecer?

Ontem, a Neide me disse que no domingo quando fui embora, você ficou chamando o meu nome. Isso me encheu de alegria, pois acredito que apesar de não termos trocado uma palavra, você me ouviu falar pela última vez que te amo.

Agora, só me resta dizer: Minha querida, minha adorada: “Até um dia. Até talvez. Até quem sabe”.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Cada Dia!

Minhas tardes de terça e quinta têm sido ocupadas por passeios ao Shopping Iguatemi. Não, eu não frequento a Tyffany, Gucci, Christian Louboutin ou as demais lojas de alta grife.
Me contento em andar e olhar roupas que não cabem em mim ou no meu bolso. Compro pequenos mimos, tento não sucumbir ao apelo de mais um sapato. Tomo café, como um sanduiche de rosbife com geleia de pimenta e mergulho no maravilhoso mundo “da Cultura”.

Na minha livraria favorita, esqueço as horas e viajo por lugares físicos ou emocionais por meio de milhões de páginas e palavras.

Saio da “Cultura” com livros que nem sempre leio, mas que compro pelo impulso de tê-los e torná-los uma espécie de projeto, de compromisso, de promessa, como aquelas que nos fazemos todo início de ano.

Há dias em que tudo que preciso é da superficialidade dos livros de capas coloridas, destinados a mulheres que querem apenas se divertir com leitura rasa, que cumpre o papel da abstração e nos coloca em contato com roteiros manjados, como em muitas ocasiões desejariamos viver.

Noutros dias, flerto com a densidade de José Saramago (que me confunde com sua literatura sem pontuação), tenho recaídas por Gabriel Garcia Marquez e Guimarães Rosa. Insisto com obras tão complexas que depois de vencidas 300, de suas 800 páginas, abandono, com a sensação de que minha inteligência não é para tanto. A sensação é que o autor escreveu em códigos que só podem ser decifrados por ele.

Aproveito também para aumentar meu acervo de filmes – sempre os já vistos, alguns, dezenas de vezes. Escolho as trilhas sonoras do percurso inevitável, rumo à diálise. Ritmos alegres, daqueles que ouço alto, como artifício para esquecer o destino que me levará para quatro horas nas quais de alguma maneira, minha vida parece parar, refém daquela máquina, ao mesmo tempo em que é renovada.

Depois volto para casa, respondo e-mails – quase todos dos alunos da PÓS – e fico elaborando novos capítulos, contando pedaços da minha vida, selecionando as pedras do quebra-cabeças que possam traduzir-me para minha única e verdadeira amiga virtual: Miriam.
Sobretudo, espero seus e-mails, como antigamente esperava pelas cartas que me conectavam aos amigos da adolescência. No último e-mail, ousei falar “phoda”, pisando em ovos para não assustá-la. Penso que ela também estava ansiosa por esse sopro de intimidade, já que escreveu “porrada”. Nesse ritmo, creio que não muito adiante poderei usar minha expressão libertadora: “puta que pariu”, que me serve nos momentos de raiva e de êxtase.

É claro que em casa também cumpro meu ritual de “Dona Sebastiana”. Ponho roupas para lavar, faço comida, preparo as instruções para a Conceição tocar a casa no dia seguinte. Sonho com uma nova decoração, tento colocar ordem no meu armário, certa de que essa é uma tarefa impossível e espero que o silêncio seja quebrado pela chegada do Helvécio e dos meninos, que passam por aqui feito passarinhos.

Nessa quinta,  o dia teve dose dupla de shopping. Primeiro almocei com a Vivi e a Iris no Boulevard. Depois, Iguatemi. Na próxima semana pretendo fazer um up grade na minha visita à “Cultura”: vou levar o notebook. Hoje, para escrever esse post, consumi o estoque de guardanapos do café.

Em tempo: quando tomávamos café no Boulevard fui atendida por uma moça chamada Ana Maria. Ao falarmos sobre a coincidência dos nomes, sua colega disse: “toda Ana Maria é bonita”. Ganhei o dia e quer saber? Acho que ela está coberta de razão.

Elisa Lucinda escreveu e a Vivi repercutiu: “parem de falar mal da rotina”. Então, tá...

“Dias, dias, dias!
Que iludem os que agem como senhores de sua sina.
E surpreendem vorazes as pessoas em desaviso.”

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A cada dia, um dia... Em vários dias, a vida...

“Cada dia os dias são diferentes e mexem com agente de um jeito;
 Com uma magia ou um terror...

 Se não é mal de amor e mau de humor
 Ou harmonia ou euforia ou tédio
 E os sentimentos se renovam e morrem...
 A cada dia um assédio...
 Ou do vento ou do sol
 Ou do amado ou do amigo
 E as risadas disparam às vezes sem motivo
 Ou  as lágrimas caem de torpor ou tristeza ou perigo.
 A cada dia, um dia.
 Em vários dias, uma vida.
 Quantos amores?
 Quantos sorrisos?
 Quantos lugares?
 Quantos abrigos?
 Os dias e as noites interagem alheios aos medos, aos horrores, ao
 desassossego.
 Como vivos, como lares contém o destino.
 Dias, dias, dias!
 Que iludem os que não agem
 Como senhores de sua sina.
 E surpreendem vorazes, as pessoas em desaviso.”

 (“A cada dia, um dia... Em vários dias, a vida”, por Súlzer Larissa Germano)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

HELLO, AGAIN....

Faz tempo que não venho por aqui. Dia após dia, abri essa página para registrar as minhas impressões sobre a vida, sobre as alegrias e tristezas, sobre os acontecimentos, mas quase sempre me pareceu pretensioso falar de uma rotina que não faria sentido para ninguém, especialmente para mim.

Nesses quase dez meses em que não registrei uma única palavra no Blog, muitas coisas aconteceram. Boas, ruins, alegres, tristes, indiferentes, iguais. Hoje, premida pela solidão, por um estado de espírito que nem de longe se parece com o astral do carnaval, deu vontade de escrever, de visitar esse espaço, que afinal, é meu diário. Portanto, decidi subir a bordo de minha canoa e voltar a remar.
A primeira e óbvia coisa a dizer é que continuo na diálise. Houve a fase do completo e absurdo sofrimento, outra de resignação, aquela de achar que o tratamento nem era tão ruim e de regozijar-me com as visíveis melhoras. Depois, veio o inesperado uso de um cateter no pescoço, após uma cirurgia emergencial. Perdi a fístula e desci ao inferno com uma espécie de punhal cravado no pescoço que me mostrou com crueldade, como é duro passar quase três meses refém desse castigo. Mas pude descobrir, ao final, a alegria de tomar banho só, de lavar a cabeça e sentir a água escorrendo pelo corpo. Talvez a melhor sensação tenha sido a de poder sair à rua, sem ser observada como se fosse um ET.

Nos últimos dez meses fui incluída na fila de transplantes e, embora ocupe a posição 2.095, sinto a esperança de a qualquer momento ser agraciada com a doação de um órgão e ter de volta uma vida que me permita não ficar escrava da rotina que a diálise impõe.


Como a vida segue seu curso, participei de forma esfuziante do casamento de duas pessoas amadas: Juliana e Viviane. Tenho em conta que foram verdadeiros presentes, ver surgirem essas duas queridas, lindas como num filme, em seus vestidos brancos, com sorrisos que nunca se apagarão da minha memória.

Tornei-me uma “aposentada”, uma daquelas pessoas que ganham o direito a um soldo, sem ter que bater ponto em um estabelecimento. Nesse caso, sempre que possível, procurei viver como tal. Ir ao shopping de tarde. Pensar em cursos de artesanato, ter direito a atendimento preferencial e dormir quando dá na telha, ou quando a pressão cai e torna esse privilégio, uma necessidade.

Li dúzias de livros. Para confirmar a minha admiração pelo Uruguai, encontrei - pelas mãos da Vivi - o livro "A Trégua", que me ajudou a compreender muito sobre minha vida, seguindo o diário do personagem Martin Santomé.
Assisti incontáveis filmes, alguns adoráveis como: “Medianeiras” e “Minhas Tardes com Margueritte”, outros, descartáveis, mas nem por isso, desprezíveis. Viciei-me em novas séries, como Criminal Minds.
Aprendi a fazer pulseiras e até mesmo às vendi. Mudei a decoração da casa, pintei paredes, comprei sapatos e aprendi a gostar de café expresso, pelo simples prazer de usar esse ato para justificar a falta de companhia num passeio ao shopping.
Reencontrei amigas de infância (Shirley), da adolescência (Carla Soraya), da faculdade (Analvary) tudo graças ao mundo mágico do Facebook. Senti saudades de pessoas que apesar do tempo, teimam em assombrar-me com a força do passado. Fiz uma amiga virtual, chamada Miriam, que foi minha aluna na POSEAD e que me ofereceu ensinamentos especialíssimos, como se nossas vidas sempre tivessem estado grudadas. Discuti a relação com a Sol, trocando ofensas que se desmancharam no ar, pois esse tipo de amizade é para sempre, apesar das diferenças. Vivi com intensidade meu casamento – sem deixar de ir ao céu e ao inferno, pois viver a dois não é bolinho – sofri e me alegrei por meus filhos. Dia sim, dia não, o coração fica apertado e cheio das dúvidas mais cruéis sobre o caminho que eles seguirão e o quanto sou impotente para mudar o curso de suas vidas.
Viajei de férias. (aquelas no tempo que me coube ter) Fiquei estirada ao sol inclemente de Natal, olhando pela varanda o verde inacreditável daquele mar. Fechando os olhos e tentando reter aquela imagem e o som das ondas que por alguns segundos pareceu conduzir-me ao inalcançável mundo da perfeição.

Fui agraciada com a visita e inúmeras mensagens de carinho de ex-alunas(os), comprovando que o tempo de sala de aula foi um dos mais felizes de minha vida e sonhando que esse tempo possa me ser devolvido algum dia, pois tudo que desejo é acreditar que minha vida profissional esteja apenas fazendo uma pausa, esperando uma chuva forte, que vai passar.
Há dias em que estou inacreditavelmente feliz. Outros em que nada parece fazer sentido. Há dias em que fecho os olhos e ao abri-los, finjo que sou magra, rica, bonita e que a vida pode ser do jeito que eu quiser. Meu tempo, meus sentimentos oscilam entre o que posso e o que aspiro viver.
Como escreveu Marcel Proust, no livro Em Busca do tempo Perdido: “Alegam os poetas que, ao adentrar alguma casa ou algum jardim onde moramos quando jovens, reencontramos por um instante aquilo que já fomos. São peregrinações muito arriscadas, que produzem em igual medida sucessos e desilusões. Esses lugares fixos, contemporâneos de outros anos, é dentro de nós mesmos que mais convém encontrá-los.”  
Ou como cantou brilhantemente Elis Regina: “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas, aprendendo a jogar”.

 

sábado, 28 de maio de 2011

ABRINDO AS PORTAS DA ESPERANÇA

Na década de 80 ou talvez 90, o apresentador Silvio Santos tinha um quadro no seu programa que se chamava “As Portas da Esperança”. (Pode ser que não tivesse exatamente esse nome). No quadro, o apresentador contava a história de alguém que pedira alguma coisa muito importante para si. Eram pessoas querendo enxovais, cadeiras de roda, móveis.... A produção do programa procurava por empresas dispostas a atender ao pedido dos participantes. Silvio Santos falava do sonho – sim, quase sempre a pessoa estava no limiar do desespero – e pedia que as portas da esperança fossem abertas. Se o pedido fosse contemplado, por trás da porta estaria alguém e muitas vezes até o objeto do desejo. Em algumas situações não havia nada quando as portas se abriam. Assim como na vida, nem sempre os sonhos podem se materializar.

Enfim, não sou uma aficionada por Silvio Santos e esse post é para falar que nessa semana, uma fresta da porta da esperança se abriu para mim. Há uns cinco anos tive um ganho considerável de peso. O quadro começou com uma medicação e evoluiu com a baixa de auto-estima.

Como é de domínio público, desde o começo de maio estou fazendo hemodiálise. Não tem sido fácil, minha vida passa por mudanças significativas. Mas estou me ajustando e nas duas últimas sessões já fui dirigindo. Isso me deu a sensação de não ser tão dependente. Já consigo olhar a clínica na qual faça o tratamento de uma maneira menos hostil.

Nas primeiras sessões chegava por lá com a sensação de quem ia cumprir um ritual inútil e que tudo resultaria em dor e sofrimento. Enfim, como a vida está sempre nos mostrando: nada como um dia e outro e outro. A verdade é que caminhando para um mês de tratamento eu já experimentei algumas mudanças. A melhor delas foi abrir um armário com as roupas de cinco anos atrás e conseguir entrar em algumas. Foi uma emoção. São roupas simples, mas que representam um momento importante da minha vida. Eu estava feliz, confiante e o futuro parecia promissor.

Abrir aquele armário foi mais ou menos como abrir as portas da esperança e ter um desejo realizado. Deu-me ânimo e mais confiança. Agora consigo acreditar que talvez volte a ter meu peso anterior e que possa retomar a auto-estima. O tratamento é uma peça importante desse jogo. Os primeiros exames demonstram que a diálise já conseguiu expurgar boa parte das substâncias ruins que estavam morando dentro de mim. Ninguém acorda e agradece a Deus por mais um dia de diálise. Esse não é o sonho de consumo de nenhuma pessoa. No entanto, meu “Pollyana way of life” já dá mostras de que, a despeito da tristeza, da desesperança que experimentei ao receber esse diagnóstico minha vida poderá passar a outro patamar.

Já consigo olhar para mim sem autocomiseração e, acreditem, isso é muito! Cada dia que visto uma roupa do passado, tenho a sensação de colocar um pouco mais de cor no meu presente. Estou lendo um livro muito simpático chamado “Um Dia”.

O autor começa sua narrativa com uma poesia:

“Para que servem os dias?

Dias são onde vivemos.

Eles vêm, nos acordam

Um depois do outro.

Servem para a gente ser feliz:

Onde podemos viver senão neles?

Ah! resolver essa questão

Faz o padre e o médico

Em seus longos paletós

Perderem seu trabalho”.

(Philip Larkin, “Days”)

É mais ou menos assim. Na vida só podemos viver um dia de cada vez.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A Primeira Vez

Em 1987 uma campanha publicitária ganhou o Brasil. Era delicada e falava sobre a experiência única de se usar o primeiro sutiã. O mote era despertar nas pessoas a capacidade de recuperar momentos inesquecíveis de suas vidas.

De fato, a primeira vez a gente nunca esquece. Por exemplo: o primeiro beijo. Ok! O meu foi totalmente esquecível. Embora nunca mais tenha visto aquele garoto e a experiência não tenha sido arrebatadora, ficou registrado na memória meu ingresso no mundo das bitocas. E cá para nós, beijar, pela primeira, segunda ou milésima vez é sempre uma delícia.

Houve outras primeiras e memoráveis vezes. A primeira vez que vi a carinha dos meus filhos...A primeira vez que me senti gostosa...A primeira vez que ouvi Jorge Drexler...A primeira vez que entrei numa sala de aula...A primeira vez que tomei sorvete de menta com chocolate...

Mas não é desse tipo de primeira vez que quero falar. Infelizmente, ou felizmente fui apresentada à minha primeira vez na hemodiálise. E quer saber? Não foi nada divertido passar a fazer parte desse clube. Diferente do primeiro beijo, quando alimentamos a esperança de que haverá fundo musical, que um cenário de sonho vai se estabelecer e que o chão vai se abrir com anjos trombeteando – enfim, talvez isso seja mais para anunciar o fim dos tempos – a experiência de encarar a máquina pela primeira vez foi um pesadelo. Não há cenário capaz de tornar essa experiência menos traumática. Não é nada interessante passar duas horas vendo seu sangue ser conduzido por duas mangueiras e escutar aquela máquina apitando, como aqueles aparelhos de UTI. É um tempo que você, por mais imaginação que tenha, não consegue esquecer que está doente e que aquele lugar não seja um hospital. O pior é saber que isso fará parte da sua vida por um tempo impossível de ser quantificado.

Como já tive ocasião de manifestar, não quero adular a autocomiseração. Estou lutando para não ter dó de mim, mas está difícil. Não é bacana olhar meu braço e vê-lo destroçado, como se tivesse levado uma surra. Nesse momento, eu sou a rainha dos hematomas e de uma dor que não me deixa dormir.

Por enquanto, nesse jogo entre Ana Maria e a máquina, ela está ganhando de goleada. Estou confiante, mas acho que ainda vai levar um tempo prá poder dar risada e virar esse placar.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Os "meus" meninos!

Quando fui aprovada no vestibular, no final da década de setenta, depois da alegria de ver meu nome na lista, o segundo passo foi prospectar as chances de encontrar um grande amor entre os colegas. Sim, as meninas numa turma majoritariamente feminina, estavam interessadas nas possibilidades de namoro. Eugênio, Fernando, João Angelo, José Maria, Marco Antônio, Marcelo Barra e Ronaldo. Sete garotos. Cinco. Afinal, dois deles tinham interesses sexuais na mesma categoria das meninas.

É claro que não rolou namoro, mas desse grupo saíram dois grandes amigos: João e Ronaldo. Embora no caso do Ronaldo, tenha sido uma amizade meteórica, nem por isso, menos querida. Acontece que ele se desgarrou rapidinho para casar.

Sempre tive facilidade de me relacionar com meninos. E falo de amizades sinceras e duradouras. De camaradagem e cumplicidade. E hoje quero falar de dois amigos desse tempo.

Um deles é o João. João Angelo Fantini. O outro, Lisandro. Lisandro Nogueira. Dois amigos queridos com os quais tive a oportunidade de viver ótimos momentos. Hoje, escrevo banalidades nesse blog - arremedo de diário - e levo uma vidinha besta, que não merece registro. Os dois, cada um a sua maneira, trilharam caminhos promissores. São reconhecidos nas suas áreas de atuação, já publicaram livros e têm blogs que falam de assuntos muito mais relevantes e claro, são cinqüentões charmosos.

Enquanto eu corro atrás de “sobrevida” como gostam de dizer os médicos e começo a contagem regressiva para a hemodiálise, prevista para a próxima semana, meus amigos constroem suas respectivas trajetórias. E nos últimos tempos eu penso com freqüência neles e no quanto foi importante tê-los conhecido.

Faz tempo que não os encontro. Lisandro, não vejo há mais tempo que o João, mas eu os adoro e a distância nunca foi capaz de fazer esse sentimento diminuir. Vez ou outra nós trocamos e-mails e telefonemas. Lisandro, eu vejo nas crônicas de TV num telejornal de Goiânia quando estou por lá. É ótimo saber que ele transformou sua paixão por cinema numa ocupação e que multiplica seu conhecimento sobre a sétima arte. É hoje uma referência sobre o assunto.

A Universidade Federal de Goiás foi nosso ponto de encontro. Lisandro estudava História e eu não sei  como nos tornamos um trio. A verdade é que durante muito tempo nossas vidas andaram muito próximas. Lembro, particularmente, de um período em que vínhamos juntos para Brasília. Eu, como já tive a oportunidade de comentar, tinha um grande amor por aqui e eles cuidaram de seguir a mesma trilha. Lisandro chegou a namorar uma garota e o João tentou emplacar um flerte com a irmã dela. Mas era um pessoal estranho e no final das contas, a história rendeu mais piadas, que romance. Daqueles dias, lembro da gente voltando para Goiânia no fusca do Lisandro, em desalento. Mas com vinte e poucos anos, a tristeza dura algumas horas, talvez dias, não mais.

Temos muitas histórias para contar, fizemos planos juntos e acho que havia entre nós um equilíbrio entre o meu pseudo vanguardismo, o cinismo cheio de charme do João e o excesso de confiança do Lisandro, que na verdade, escondia insegurança expressa no seu tique favorito: enrolar a ponta dos cabelos. Acho que dessa época o que conta de verdade era a incrível e despudorada capacidade que tínhamos de rir de nós mesmos e da nossa fanfarronice.

Nenhum de nós levou adiante o grande amor. Fomos atropelados pela vida que cuidou de nos apresentar a relacionamentos reais, menos Hollywood. Bem, talvez isso se aplique ao Lisandro e a mim. O João, pelo que sei, continua beijando muitas bocas e vivendo amores eternos enquanto duram.
Do João eu tenho lembranças muito ternas. Algumas inesquecíveis. Como ele foi embora para São Paulo, tivemos vários encontros no período em que eu viajava a trabalho para lá. Ele foi um ombro acolhedor, mesmo me dizendo na lata e sem verniz, coisas que precisava ouvir. Independente de seu pragmatismo, soube ser um amigo leal e enxugar muitas lágrimas. Algo assim: passa a mão na cabeça, mas dá um safanão – sem perder a ternura jamais – claro!

Dia desses, sonhei que ia me casar e era ele quem iria me conduzir ao altar. Não! Ele não era o noivo. Quando contei o sonho ele perguntou com a sua costumeira ironia: “mas no seu sonho eu ainda tinha cabelo”? Claro. Afinal, no meu sonho eu era bonita e magra.

Uma das maiores alegrias que tive foi vê-lo viajando com meus filhos para a Chapada. É claro que depois disso, Guilherme e Rodrigo alcançaram em sua vida o status de “brother” que eu não tenho mais idade e disposição para ser.

Não posso ouvir a Nana Caymmi que as lembranças do João chegam de pronto. Não porque ele seja um ardoroso fã, mas porque nunca me esqueci quando ele profetizava: "quer acabar com uma festa, coloca um disco da Nana Caymmi prá tocar". 

Lisandro e eu temos tantas coisas em comum que até fomos brindados com a mesma patologia: rins policísticos. Da última vez que nos falamos ele cuidou de encher meu coração de esperança e de garantir que há vida após a hemodiálise. Eu acreditei.

Nada é mais a cara do Lisandro que Glauber Rocha. E claro, sempre corro risco de morte quando declaro que acho o cara um grande "chato". Prá ele isso é tiro no peito. Ninguém é perfeito. Afinal, ele até gosta de Moraes Moreira. Fazer o que?
Quando pensei em escrever para eles, descobri, com tristeza, que não tenho uma foto em que aparecemos os três juntos. Eu espero que possamos reverter isso.

Enfim, meus queridos “João de Deus”, “Jonh very good” e “Lili”. Eu os amo! Muito!! E não queria que meus dias terminassem sem que pudesse dizer isso com todas as letras prá vocês.

Super beijo.

Ana Maria