sexta-feira, 19 de novembro de 2010

BR 060


Em 1970, Tony Tornado ganhou o Festival Internacional da Canção com a música “BR 3”, que falava sobre a famosa rodovia que liga o Rio a Belo Horizonte. Virou um hit, em especial, pela coreografia que o cantor criou. Bem, mas esse post não é sobre a música, nem sobre a importância dos festivais.

Voltei hoje de Goiânia. Faz muitos anos que pego a estrada que liga as duas cidades, mas hoje foi especial. Estava sozinha e durante as duas horas e alguns minutos meus pensamentos fizeram uma viagem paralela pelas lembranças. Curiosamente, percebi que a estrada pode ser vista como um personagem de filme e no decorrer dos anos, várias vezes, funcionou, também, como um ente querido.

A primeira vez que cruzei a BR 060 de Goiânia para Brasília eu era uma adolescente. Fizemos uma visita a uma prima que morava na capital federal. Seu marido era um carioca, negro, alto, muito alto, chamado Agenor. Cheguei à cidade com meu irmão, minha cunhada e minha prima Ruth. Lembro-me de algumas coisas desse dia: a cidade me pareceu um deserto com prédios distribuídos no meio do cerrado. Minha prima – que viria a morar na cidade antes de mim – disse que jamais moraria aqui. Lembro que almoçamos muito tarde, por volta de duas da tarde, o que para os hábitos metódicos de meu irmão, era uma aberração. Nesse dia, pela primeira vez, vi alguém servir maionese com beterraba. Isso sim, achei aberração maior ainda.

A segunda vez, eu vim com a Mazzarelo, minha meio irmã e seu namorado Tobias. Ele veio resolver questões burocráticas e eles me convidaram. Dessa viagem lembro-me de uma coisa estupenda para a época. Pela primeira vez, subi numa escada rolante. Foi uma experiência e tanto. Comemos pastel na Rodoviária e eu achei o máximo “andar” naquela máquina que fazia a gente se deslocar de um andar para outro sem esforço.

Eu não me lembro da terceira vez. Minha memória só alcança a viagem que fiz quando a prima Ruth já morava aqui. Lembro-me, particularmente, da volta. O então namorado dela, Carlos, decidiu nos levar de volta a Goiânia. "Nós", nesse caso, era minha amiga Dudu e eu. Na época, a estrada não era duplicada e ele fez o percurso em uma hora e quarenta e cinco minutos. Foi inesquecível, pois Dudu e eu mal respiramos de tanto medo.

Depois, a estrada se tornou uma constante para mim. Foram mais de quatro anos indo e vindo com muita freqüência. A razão? Aquele amor que já mencionei. Fazíamos revezamento e desse tempo eu me lembro como eram tristes os retornos. Era dolorido ir embora. Fiz dúzias de viagens de carona Goiânia/Brasília com dona Elodia. Uma senhorinha de pouco mais de um metro e meio, se muito. Na época, ela era responsável pelo malote de uma loja de fotografia de um amigo meu. Saia pontualmente às 18h00 de Goiânia e passei a acompanhá-la. Nos tornamos amigas e confidentes. Ela foi uma fonte de aprendizado para mim e as viagens passavam como um raio, pois nossas histórias faziam o relógio andar rápido.

Dessa época, lembro-me de uma viagem que fiz com meu irmão Roberval. Ele veio trazer os móveis que adornariam a casa que seria minha e do amor daquele tempo. Foi uma oportunidade rara que desfrutamos, falando de coisas que poucas vezes tínhamos privacidade para tratar.

No percurso de hoje, tantos anos depois, as lembranças foram evidenciadas pela trilha sonora. A música de Ivan Lins que há muito eu não ouvia foi responsável por trazer de volta um turbilhão de recordações. Estavam lá a viagem de moto e a parada nas mangueiras para descansar. A tentativa de achar o fio da meada daquele amor que se perdeu para sempre. A música “Começar de Novo”, entregue como um troféu para ilustrar a minha capacidade de ter superado uma separação, que naquele tempo parecia uma tragédia, mas que provou ser brincadeira de criança frente à separação que viria depois.

A estrada foi testemunha de muitas lágrimas. Chorei um milhão de vezes achando que não haveria mais razão para viver. Cheguei mesmo a tentar um atalho passando dessa para outra, mas me esquecendo que quem morre de véspera é peru. Dessa trágica viagem lembro-me do Lizandro indo me buscar na Rodoviária e determinando: “chega”! Mas, novos episódios pouco memoráveis ocorreram ainda.

Pouco tempo depois, o destino cuidou de dar seu basta às minhas ilusões, colocando no meu caminho um amor que foi crescendo e se tornou uma história de verdade. Nos primeiros tempos, cruzamos a estrada com parte do mobiliário, dessa vez, para uma casa que seria efetivamente nossa, para a família que estávamos começando a construir. Essa família foi responsável por outros momentos memoráveis nesse percurso. Nossos filhos crescendo, e mudando o roteiro dessas viagens. As paradas inevitáveis para dar comida aos meninos, fazer xixi, ver de perto o passarinho, pisar no chão de terra e responder as perguntas sem respostas óbvias que eles faziam sem parar. “Mamãe essa estrada vai até o infinito”? “Papai, posso dirigir seu carro”? “Mamãe, porque a gente não pode ir no banco da frente”. “Pai, porque há tantos verdes diferentes?’ “Mamãe, aquelas árvores estão encostando no céu?”.

Assim que eles foram crescendo, as viagens foram ganhando outros enredos. Novos personagens e a estrada também sofreu suas mutações. Mudou para melhor. As pistas aumentaram, o trajeto ficou mais rápido, mais seguro.

Vezes e vezes cruzei essa rodovia sozinha. Dúzias de vezes achando que não tomaria o caminho de volta, que seria a última vez. Certa ocasião peguei os meninos e cheguei a Goiânia pronta para tomar um porre. Logo eu, que nunca gostei muito de beber. Era uma forma de delimitar território, de realçar a capacidade de ser dona de mim. Nessa aventura, me acompanhou a Vânia, na noite em que tomamos um balde de margaritas e fizemos charme para o garçom. Final de linha.

A Vânia também estava presente numa das viagens em que afundei o pé para chegar a tempo de pegar um show do João Bosco que, aliás, foi trilha sonora de muitas viagens.
Viviane também foi minha companheira em várias ocasiões. Íamos juntas cantando juntas todos os hits do Drexler, trilha sonora para nossas conversas tristes e alegres. E tivemos a inesquecível freada ao chegar a Samambaia quando uma moto saiu do nada e pensamos que não haveria como não arremessar seus passageiros e respectivas sacolas.

Houve um tempo em que senti uma enorme vontade de não precisar mais cruzar esse trecho. Muitas vezes, fazer esse percurso foi uma busca inevitável do colo de minha mãe. Outras, eu deixei Goiânia sentindo hostilidade por ela. Família é assim. A gente ama e odeia em frações de segundo. Hoje, sai de lá chorando, pois foram ótimos os dias que estivemos juntas. Cada vez mais, também, sofro por me separar de meu irmão. Ele e suas piadas, seu jeito peculiar de expressar amor. Enfim, a vida é assim.

A viagem de hoje foi marcante, pois os procedimentos cirúrgicos que me aguardam e a proximidade cada vez mais determinante do começo da diálise criam insegurança, lançam-me num processo de medo e ansiedade permanentes.

Espero, entretanto, que ainda haja muitas viagens e que elas sejam sempre momentos de alegria pelo reencontro e de esperança de que a vida possa ser verdejante como a paisagem dessa estrada e que representem um "começar de novo". Estou lendo “O tempo entre costuras” e uma frase foi muito significativa: “Deus aperta, mas não sufoca”. É com isso que estou contando.






segunda-feira, 25 de outubro de 2010

"PEQUENA ABELHA"


Terminei de ler um livro chamado “Pequena Abelha”, relato ficcional da vida de uma refugiada nigeriana, em Londres. De maneira suave o autor fala de um tema que parece distante. É uma história cativante, e em alguns momentos, até divertida. Terminei a leitura num sábado, dia em que fui ao Park Shopping. Guardadas as devidas proporções, tive a mesma sensação de “não pertencimento” relatada pela personagem.

Ao chegar àquele centro de compras me senti um pouco como uma refugiada. Explico. A personagem narra sua perplexidade diante de uma cidade com jeitos e costumes completamente diferentes dos seus. Foi assim comigo. Depois que parei de trabalhar, sinto-me apartada. As pessoas bem vestidas, descontraídas, cheias de sacolas, embevecidas com as vitrines, entram em rota de colisão com a nova vida que me coube viver. E não é raro me sentir estrangeira nesse novo modelo. Todo aquele ritual parece diverso do que conheço. Até as palavras, ganham um novo sentido.

Na minha “nova vida” sinto-me quase sempre como uma refugiada. Minha casa se tornou meu abrigo, meu esconderijo. É daqui que olho a vida e ela parece um universo ao qual não pertenço. No livro, a “Pequena Abelha” está sempre buscando no passado conforto para um presente de angústias. É como se aquilo que viveu antes fosse sua referência, até mesmo seu porto seguro. O futuro é um lugar incerto, uma zona cinzenta, um terreno que parece reservar armadilhas. O futuro é um desafio permanente. No passado havia amigos e a presença da família. No presente os amigos são apenas uma lembrança. Aliás, na ausência física das pessoas queridas, a “Pequena Abelha” está sempre dialogando com o passado, buscando o tempo em que era possível compartilhar suas alegrias, medos e inquietações. Mas esse é um exercício de silêncios, pois o passado não é capaz de interagir.

Sempre que se defronta com o novo, a “Pequena Abelha” lança ao passado perguntas que vão ficando sem respostas. É um pouco assim comigo. Nesse momento, há mais perguntas que respostas. Na ausência delas, a personagem, assim como eu, recorre às analogias. Entra no mundo das suposições. Das especulações. Dos, “e se”... E se eu tivesse emagrecido? E se eu não morasse aqui? E se eu não precisasse de diálise? E se tudo isso fosse só um sonho ruim?

“...Às vezes eu penso que gostaria de ser uma moeda de uma libra esterlina em vez de uma menina africana. Todo mundo ficaria satisfeito ao me ver. Talvez eu fosse à sua casa no fim de semana e então, de repente, como sou muito inconstante, eu iria visitar o homem da loja da esquina – mas você não ficaria triste, porque estaria comendo um pãozinho com canela ou tomando uma lata de Coca-Cola gelada, e nunca mais pensaria em mim. Seriamos felizes, como amantes que se encontram num feriado e depois esquecem os nomes um do outro”...

E se fosse assim?

domingo, 10 de outubro de 2010

"MANUEL, O AUDAZ"....


Não sei o que me levou a essa lembrança. Talvez o por do sol, tão parecido com aquele do dia em que me apaixonei por você. Viajávamos numa magnífica tarde, eu olhava o contorno do seu rosto e só conseguia pensar: “como é possível amar alguém que a gente mal conhece”?. Mas estava escrito. Não era livro. Não era filme. Não era novela. Mas era amor. Um amor que me acompanhou durante anos e anos. Um amor que por vezes me fez duvidar se haveria vida, felicidade, sem que você fosse o centro de tudo. Um amor tão avassalador, que não acabou quando terminou, que ficou me assombrando, até se transformar numa história que ao ser contada, parece de livro. Parece de filme. Parece de novela. Mas foi real.

Levei muito tempo para esquecer seu cheiro de manteiga, seus pés, sua risada e sua fala compassada e professoral. Você fala com pausas, como quem dá tempo a quem ouve para processar e compreender. Sim, porque seu discurso nem sempre alcança os simples mortais.

Você não deve se lembrar, mas eu sim. De todas as coisas que me disse. E mesmo aquelas que talvez fossem um artifício de sedução, até elas soavam como promessa. Aliás, dias desses achei num caderno um termo de compromisso no qual você jurava amor eterno, mas na época eu não levava a sério o fato de que amores só são eternos, enquanto duram.

Eu me lembro do primeiro beijo, do primeiro toque, das aventuras e desventuras. Do garotinho de cabelo anelado que você disse: “seu filho vai ter essa cara” e tirou uma foto. Mas nenhum dos meus filhos reais têm aquela estampa.

Eu me lembro do caminho de hortênsias e da sensação de que vivia dentro de um sonho e da trilha sonora... “eu não sei se vem de Deus, do céu ficar azul, ou virar dos olhos seus, essa cor que azuleja o dia”...E foram tantas, as trilhas sonoras de nossa história.

Lembro de você medindo meu dedo no casamento de minha prima e depois, me surpreendendo com um anel que veio dentro de um porta jóias na forma de um chapéu. Eu não posso esquecer o piquenique no rio sujo, os obstáculos para chegar, os mosquitos e a escapada furtiva para experimentar o amor na natureza.

Eu me recordo de você me recolhendo na janela e de travessamente violarmos a cama de sua mãe. Eu não me esqueço dos discos de Nara Leão e Elis Regina e dos filmes de arte na “Cultura”.

Eu me lembro até do Mário (que nunca conheci), aquele que ganhava “pudins” como gratidão pelo amor que oferecia. Eu nunca vou me esquecer do beijo trocado no chão do quarto de hóspedes, naquela noite em que eu tive muita, muita raiva de você.

Como esquecer os arroubos, os rompantes, e até mesmo as "previsões improváveis" sobre o nosso futuro. Lembra? A ideia era que nos encontraríamos furtivamente, que nos embrenharíamos nas lembranças, que esgotaríamos o desejo e que depois, seguiríamos para a vida que nos caberia viver. De alguma forma, foi assim.

Você não sabe, mas o abraço que trocamos no saguão daquele hotel fez o tempo parar, mas o abraço que trocamos, agora a pouco, já não descompassou meu coração...

Nossas vidas seguiram rumos diferentes, mas a despeito de tudo que nos juntou, e, sobretudo, do que nos separou, as boas lembranças conseguiram se firmar. E é por isso que hoje, eu rompo a prudência e os pudores para te dizer essas palavras. Nesse momento, em que minha vida parece um labirinto, em que o futuro parece incerto, o passado cumpre o papel de nos mostrar quem de fato somos, ou fomos.

Essa não é uma declaração de amor tardia, pois penso que usei todas as oportunidades para falar do meu sentimento quando ele pulsava, pulsava...Mas aquele por de sol foi uma bela moldura para dar às lembranças, o status que lhes cabem: o de boas lembranças. Nada mais. E porque não abusar dos clichês: "tudo vale a pena, se a alma não é pequena". Valeu!


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Tudo bem, se vai mal"...


Hoje fui ao médico pela manhã para levar o resultado de meus exames. Uma mamografia indicou a presença de um nódulo na “mama” esquerda. Fiquei mal! Mas tudo bem! Os demais exames indicaram que a função renal piorou. Isso, depois de passar dois meses cumprindo com bastante disciplina a dieta. Tudo bem! E por falar em dieta eu não consigo perder peso. É frustrante, mas, tudo bem! A anemia está em níveis abissais. Tudo bem!
O resto do dia eu usei para fazer faxina, minha empregada está de licença médica e desde então, minha rotina implica limpar, lavar roupa, passar, lavar louça, cozinhar, mas tudo bem! Quando eu limpava o quarto do Guilherme a porta do armário caiu em cima da minha perna e fez um baita hematoma. Ah! Tudo bem! Eu derramei todo o liquido do limpa vidros e depois, escorreguei e cai. Advinha? Tudo bem! Sabe o que me ajudou a passar o dia com essa, digamos, visão profunda de otimismo? Ed Motta. “Tudo bem, se vai mal...Tudo bom, vendaval”!


EU VOTEI!




Minha mãe está sempre lembrando o quanto pareço com meu pai. Ela faz questão de ressaltar que temos muitas coisas em comum e o gosto pela política é uma delas. Hoje pude confirmar isso. Foi dia de eleição e desde sempre eu adoro votar. Quando fiz meu título, aos 18 anos, passei o dia na fila e hoje, logo cedo estava lá, depositando na urna eletrônica minhas preciosas escolhas. Acho importante eleger os representantes políticos, mesmo que não tenhamos muito do que nos orgulhar nesse terreno. Tento fazer com que meus filhos pensem da mesma forma, mas não tenho sido bem sucedida. Enfim, penso que a maturidade se ocupará de mudar isso. Estou feliz, pois acredito ter feito boas escolhas e muito contente porque teremos um segundo turno para as eleições presidenciais. Acho que o principio da alternância deve ser respeitado. E fiz minha parte.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"Tudo que vai"....


O final de semana foi de tédio. Fez um calor insuportável na cidade, que, aliás, está coberta por uma névoa em razão da seca. Não chove e mesmo os Ipês, que transbordavam flores amarelas enfeitando a aridez do Planalto não suportaram o calor e foram perdendo seus cachos de flores fazendo um imenso tapete dourado.

Dediquei esses dias a organizar uma gaveta repleta de fotos. A ideia era colocá-las em álbuns. São fotos que representam muitos anos da minha vida, mas essa se revelou uma tarefa difícil. Não é usual tirar fotos de coisas ruins, mas é complicado olhar para momentos alegres registrados e perceber que eles pertencem a outra dimensão. É curioso olhar as pessoas que te abraçam carinhosamente numa foto e constatar que agora, não sabe onde estão.

As fotos revelam coisas curiosas. Você percebe que seu cabelo ficou melhor, mas que seu corpo era mais bonito. Aquele vestido inigualável, agora é bizarro. Os lugares que emolduravam a mais perfeita felicidade parecem apenas um cartão postal que alguém te enviou. Os filhos cresceram. Antes eles te beijavam e te olhavam como se você fosse uma divindade, agora, você tem dificuldades de achar uma foto recente na qual eles abracem você. O amor da juventude é um desconhecido. O vizinho prestativo virou o amor da sua vida.

Vê que suas sobrinhas estiveram sempre nos melhores e piores momentos de sua vida. Fica embevecida com as fotos da sua amiga e tem certeza que há entre vocês uma semelhança de irmãs. Olha seu irmão que foi embora tão cedo e chora de alegria, pois conseguiu registrar um abraço sem saber que era um adeus. Percebe que azul é uma cor que realça seus olhos, mas que foi aquele terninho vermelho que te abriu as portas do céu. Recorda aqueles aniversários em que meia dúzia de amigas fazia o papel de uma multidão. Constata que as praias de Natal foram as mais bonitas que você já pisou. Recorda os óculos de lente amarela e repudia não entrar naquele biquíni verde. Lembra da blusa rosa do último aniversário que você curtiu fotografar.

Lamenta que o amigo querido não esteja mais na mesma cidade e que seu sorriso largo só possa ser alcançado numa foto. Recorda as alunas que fizeram você se sentir tão querida. Revê as férias quando você era jovem e linda e não sabia disso. Ri da bolsa de retalhos que você mesma fez. Revisita o trabalho no qual passou a maior parte da sua vida. Encontra a amiga que apareceu numa matéria de revista e se pergunta: o que terá sido feito dela? Casou? Mudou de país?

Lembra da sobrinha vestida de Papai Noel, naquele tempo em que seus filhos acreditavam na magia do Natal. Dá risada da viagem de férias que foi uma cilada. Lembra de perder a linha quando viu o Mickey Mouse. Abraça seu ídolo e descobre que não foi um sonho. Reencontra sua infância e chora quando lembra que depois daquela foto, seu pai viveu três dias e se foi. Imagina se vai rever aquele por do sol, se um dia vai nadar naquele mar, se vai mergulhar naquela lagoa, se vai sentir o sabor daquele sorvete.

Sente saudades do tempo em que buscava seus filhos na escola, tem vontade de dirigir aquele carro e de calçar aquele sapato com flores. Lembra do passeio àquele rio de águas escuras e do beijo na janela e da bermuda rosa e do cabelo encaracolado. Tem vontade de abraçar a amiga que você só descobriu que amava depois que ela se mudou. É capaz de reter a imagem da viagem que ela fez à Grécia apenas pelo relato de suas cartas.

Recorda a gravata borboleta, a calça xadrez, o sapato vermelho de cadarços, a blusa rosa que tinha o desenho de um tênis. O vestido longo, a sandália apertada, a tiara e o conjunto verde e a echarpe. Sonha tirar uma foto com aquele vestido de bolinhas que você nunca pode usar. Se enternece com o beijo, ouve a canção que embalou seu primeiro amor. Sente o gosto das medias lunas e do sorvete de frutas do bosque.

Caminha pelas ruas da capital uruguaia, e retorna aos dias de São Paulo carregando uma enorme pipa colorida. Lembra da roupa azul e de ter sido confundida com uma editora de moda e das madrugadas loucas e do samba cantado por Chico Buarque.Visita as esculturas de Rodin, lembra vagamente das pinturas de Monet e sabe exatamente a cor do céu de Manhattan. Vê os cabelos arrepiados do primeiro filho e os cachinhos do outro. Lembra do dia que pensou que ia morrer. Chora pela vida que podia ter sido e não foi. Chora, pois a vida vale, seja lá como for.

"Tudo que vai, deixa o gosto, deixa as fotos, quanto tempo faz"....


terça-feira, 24 de agosto de 2010

O PRÊMIO







Terminei de ler Jane Austen e me lembrei de um comentário que ouvi tempos atrás: “nos livros de Jane Austen, as pessoas demoram muito para serem felizes”. É verdade. “Orgulho e Preconceito” ilustra a tese. Estava lendo “Emma”, um romance no qual não se pode falar exatamente de tristeza. Entretanto, foram necessárias mais de 400 páginas para que a personagem tivesse o seu final feliz.

Durante a leitura não pude deixar de fazer uma analogia. Assim como nos romances de Austen, a felicidade parece demorar muito para me alcançar. Quando cheguei a Brasília para salvar um grande amor - tarefa que não consegui realizar – em um dos períodos de maior tristeza recebi a visita de minha mãe e de minha tia Deolvira. Elas vieram me dar apoio e cuidar um pouco de mim. Naquela ocasião, minha tia disse: “Ana, você está sofrendo agora, mas tenho certeza de que a vida há de te trazer muitas recompensas. Você sofre agora, para ser feliz depois”.

É claro que tive uma coleção de momentos felizes. Mas de um modo geral, a vida andou me pregando peças e não foram poucas vezes em que, recordando as palavras da minha tia, me perguntei: “quando é que o tempo de felicidade vai chegar”?

Imaginava que as turbulências viriam, mas que como nos filmes e nos livros, haveria, ao final, o ponto de equilíbrio. O momento em que as agonias cessam e uma onda de boas novas não para de chegar.

No primeiro dia de agosto fiz cinqüenta anos. É emblemático completar meio século, mas fiquei assustada. Poucos dias antes recebi um prognóstico sobre a minha saúde que não foi exatamente animador. Tenho uma doença renal crônica e durante alguns anos fiz cara de paisagem para a gravidade desse problema. Agora, cheguei numa situação limite. Função renal de 13% e algumas taxas que representam uma preocupação efetiva. A médica que consultei foi muito taxativa, afirmando que a solução para o meu caso seria um transplante. E mais. Esse procedimento não deveria tardar.

Recebi a notícia como quem leva uma porrada e fica um tempo procurando o chão para cair. Apesar do avanço da medicina me perguntava todo tempo: “como é que vou conseguir um doador? Quem seria capaz de um gesto desses, de renúncia, de coragem e, sobretudo, de generosidade?” Os doadores potenciais, que seriam meus familiares, não estavam em condições de ajudar. E convenhamos, essa é uma decisão difícil. Não é questão de pedir emprestado um objeto, significa que a pessoa precisa abrir mão de um órgão, e de um órgão vital. É uma decisão de risco.

Quando estava me resignando que a única saída que me caberia seria enfrentar a diálise fui surpreendida por um telefonema. Era minha amiga Heloisa. Escrevi sobre ela aqui no Blog falando do nosso reencontro e relatando uma amizade que começou assim que cheguei a Brasília. Numa conversa normal de amigas, me contou os últimos acontecimentos de sua vida, em especial, sobre uma decepção que sofrera recentemente. Quando perguntou de mim contei sobre a minha saúde e como essa situação havia me deixado angustiada.

Não poderia ter ficado mais surpresa com o que ouvi. Ela perguntou o que era necessário para o transplante e respondi que a primeira coisa era encontrar uma pessoa com sangue o+, disposta a doar um rim. Da forma mais singela possível e com o maior desprendimento ela disse: “se o problema é esse, não existe mais. Tenho sangue o+, boa saúde, dois rins e um será seu.” Diante da minha perplexidade ela reforçou: “Ana, a gente não se conheceu por acaso, nossa amizade não durou todo esse tempo sem uma razão. Se eu posso te ajudar, é isso que farei. Diga o que tenho que fazer, mas minha decisão de te doar um rim está tomada. Estou pronta para te ajudar”.

Claro que depois dessas palavras tudo que consegui fazer foi chorar. Chorei muito. Eu não contava com isso. Eu não esperava por isso. Eu não imaginava que seria beneficiada por um gesto de tamanha grandeza. Mesmo que a Heloisa não possa me doar um rim, mesmo que ela mude de idéia, a despeito de qualquer coisa que aconteça ela resgatou um sentimento de enorme gratidão. Ela contaminou as pessoas que estão próximas, torcendo pela minha saúde, desencadeou uma onda de felicidade pelo gesto. A atitude de doar, a bondade, a generosidade, a capacidade inacreditável de servir e de fazer isso sem receber um pedido expresso é muito especial.

O que a Heloisa se propôs a fazer é muito grande. É uma atitude para a qual não há adjetivos. E de que maneira é possível agradecer algo assim? Que palavras têm a mesma dimensão do gesto? Não sei. Desde então, choro de alegria, pois quando penso nas palavras dela, sinto como se tivesse recebido um prêmio. Uma chance de poder recomeçar minha vida, de recuperar a esperança, de viver, acreditar nas pessoas e agradecer da forma mais sincera possível essa oportunidade.

Helô, seguro que esse foi o gesto de maior generosidade que já recebi e a demonstração mais absoluta de carinho, amizade e consideração. Posso te garantir que há uma corrente do bem, de pessoas rezando e dando graças pela sua vida e vibrando com sua bondade. Mesmo que o destino não queira que eu receba o seu rim – é claro que torço loucamente pelo contrário – eu já me sinto premiada e nunca, em tempo algum, serei capaz de esquecer sua coragem e abnegação.

Com essa ação a vida nos transfere da condição de amigas, para irmãs. Uma irmandade que se estabelece pelo amor. Por enquanto, a única coisa que posso fazer é dizer um zilhão de vezes: “obrigada”!! Obrigada por se dispor a doar uma parte da sua vida, para que a minha seja possível. Com esse gesto, mais que um final feliz, terei a possibilidade de recomeçar. É como se a vida me permitisse escrever outra história e estabelecer uma nova trajetória. O que mais uma pessoa poderia desejar?